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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O INCONSCIENTE ESTRUTURADO COMO LINGUAGEM

Freud, no artigo O Ego e o Id, traz algumas questões interessantes que vão de encontro às formulações lacanianas a respeito do inconsciente. Nesse artigo Freud faz uma colocaçao muito interessante que gostaríamos de destacar:


"A verdadeira diferença entre uma idéia inconsciente e uma idéia pré-consciente (um pensamento) consiste em que o material da primeira permanece oculto, ao passo que a segunda se mostra envolta com representações verbais....Estas representações verbais são restos mnêmicos." (FREUD, 1923 p.33-34).

Consideramos que as representações verbais, mencionadas por Freud na citação acima, nos reportam a questão da função da linguagem e sua relação com a estrutura do inconsciente, abordada por Lacan em vários de seus artigos e seminários. Lacan, (1985 p. 27), considera que o “inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Com essa proposição Lacan coloca novamente em cena a importância da fala, tal como nos indica:

...foi preciso todo meu esforço para revalorizar aos olhos deles esse instrumento, a fala – para lhe devolver sua dignidade, e fazer com que ela não seja sempre, para eles, essas palavras desvalorizadas de antemão que os forçavam a fixar os olhos em outra parte, para lhes encontrar um fiador. (LACAN, 1985 p. 26).

Lacan considera que o inconsciente obedece às leis da linguagem, por isso coloca a fala como o instrumento por onde podemos verificar as manifestações do inconsciente, através dos atos falhos, chistes, relato dos sonhos e sintomas. Propõe que é a lingüística - cujo modelo é o jogo combinatório - que confere ao inconsciente um estatuto, podendo este ser qualificável, acessível e objetivável. (Lacan, 1985 p. 28).

Em seu célebre artigo “A instância da letra no inconsciente ou razão desde Freud” Lacan (1998, p. 498) afirma que “é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente”, estrutura esta que preexiste ao sujeito, que dela se apropria e toma de empréstimo o suporte material para dirigir-se ao outro, através do discurso.

Ainda nesse artigo Lacan menciona uma “distinção primordial”, proposta pelo lingüista Ferdinand de Saussure, entre o significante e o significado que nos permite o estudo das ligações próprias do significante. Lacan, (1999), em O Seminário – livro cinco – As formações do Inconsciente, preconiza a existência de uma cadeia de significantes que podem ser representados por uma série de anéis que se prendem uns aos outros e que portam duas dimensões, a primeira chamada de combinação, continuidade e concatenação da cadeia e outra que se liga a substituição cuja possibilidade está sempre presente em cada elemento da cadeia. A dimensão da substituição traz em si todas as possibilidades inerentes ao recurso criador, ou seja, à metáfora. É através da possibilidade de substituição que se pode ter acesso, como afirma Lacan, ao mundo do sentido:


...é por intermédio da metáfora, pelo jogo da substituição de um significante por outro num lugar determinado, que se cria a possibilidade não apenas de desenvolvimentos do significante, mas também de surgimento de sentidos novos, que vêm sempre contribuir para aprimorar, complicar, aprofundar, dar sentido de profundidade àquilo que, no real, não passa de pura opacidade. (LACAN, 1999 p. 35).

Lacan nos orienta que a produção de metáforas não está relacionada apenas às questões da língua, mas também, à evolução do sentido e principalmente em relação à forma como ele enriquece nossa vida. Podemos dizer que é na cadeia significante que o sentido insiste, pois neste deslizamento, sempre em ação no discurso, o significante incide no significado em duas vertentes: a metáfora e a metonímia.

REFERENCIAS
 
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago. 2006. Originalmente publicado em 1923.
LACAN, Jacques. A instância da Letra no inconsciente ou razão desde Freud in Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. 1998.
LACAN, Jacques. O Seminário – livro cinco – As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar. 1999.
LACAN, Jacques. O Seminário – livro onze – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. 1985.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A ANGÚSTIA E A ESTRUTURAÇÃO DO EU EM MELANIE KLEIN

Melanie Klein (1882-1960) fundamentou sua teoria na observação do bebê em seu primeiro ano de vida, o que a resultou na identificação de situações de angústia profundas e poderosas nas fazes iniciais do desenvolvimento mental. Podemos afirmar que ela elegeu como tema central em sua obra a angústia e as defesas criadas pelo ego contra a mesma. Para a autora a angústia e sua resolução são pré-requisitos do desenvolvimento.

De modo contrário a Freud que privilegiou a libido, Melanie Klein tomou como foco a agressividade e sua influência no desenvolvimento psíquico do sujeito. Em seu artigo “A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” escrito em 1930, afirma que “O excesso de sadismo dá origem a angústia” (p.252), determinando assim, que a angústia tem sua origem no excesso de agressividade experimentado pelo bebê nos primeiros meses de vida. Neste mesmo artigo explica que o ego é obrigado a lidar com a angústia que advêm desse excesso pulsional, tendo que dominá-la e que para isso cria mecanismos defensivos. Nesse estágio, para se defender o ego expulsa de si a agressividade e dirige-a contra o objeto com a intenção de destruí-lo. No entanto nesse percurso a agressividade se torna a própria fonte de perigo, pois ao liberar a angústia, estabelece-se o medo da retaliação por parte do objeto atacado. A autora conclui que é essa angústia inicial que põe em movimento o mecanismo de identificação, impulsionando o bebê a avançar para outra posição em seu desenvolvimento mental. (Melanie Klein, 1930 p.252).

Melanie Klein (1930 p.253) acreditava que a capacidade do ego se relacionar com a realidade está intimamente ligada ao grau de tolerância deste ao lidar com a pressão causada pelas primeiras situações de angústia, sendo que “uma certa quantidade de angústia é a base necessária para que a formação de símbolos e a fantasia ocorram em abundância” . Percebemos como a autora coloca a angústia em uma posição central em relação ao desenvolvimento psíquico do sujeito. Neste contexto notamos uma similaridade entre o pensamento de Melanie Klein e Freud no que tange a importância do fator quantitativo de excitação que o eu é capaz de suportar e sua relação com o surgimento da angústia. É importante frisar também que a autora, assim como Freud, coloca a angústia como sendo promotora de mecanismos defensivos. Os mecanismos defensivos utilizados pela criança em seu estágio inicial de desenvolvimento são atualizados em sua vida adulta à medida que o sujeito vivencia situações geradoras de angústia. Essa idéia é desenvolvida em 1940 no artigo intitulado “O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos” onde Melanie Klein deixa claro que a forma como o bebê reage aos lutos, ou seja, às perdas é determinante em sua vida adulta.

Em seu artigo de 1946 “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” Melanie Klein traz um relato detalhado acerca do desenvolvimento psíquico do bebê em seus primeiros três meses de vida. Neste período a autora afirma que o bebê está na posição esquizo-paranóide, cuja principal característica é a cisão, tanto do eu quanto do objeto. A mãe é uma mãe excindida: a mãe boa é aquela que o satisfaz, sendo que a mãe má é aquela que lhe nega a satisfação. A cisão do objeto que deriva da agressividade que lhe é dirigida acarretará também a cisão do eu, e segundo a autora, este processo se repete nos casos de esquizofrenia. Portanto, a resolução da posição esquizo-paranóide dependerá da capacidade do eu em transformar o objeto cindido em um objeto total possível de ser internalizado pelo eu à medida que este se identifica com o objeto. Este processo é determinante na instauração da estrutura psíquica, pois uma fixação na posição esquizo-paranóide poderá desencadear a psicose em um momento posterior da vida do sujeito. Entre três e seis meses o bebê passará à posição depressiva onde estabelecerá uma relação com o objeto total sendo que o sentimento de culpa e de reparação se constituirá como marcas em seu desenvolvimento. Nessa fase ainda haverá alternâncias entre a posição esquizo-paranóide e a posição depressiva, porém uma maior integração do eu tornará possível uma maior compreensão da realidade psíquica e melhor percepção do mundo externo. A culpa e o medo vivenciados nessa fase são resultado da agressividade dirigida contra o objeto amado e o impulso em reparar e proteger o objeto é que capacitará o eu para se relacionar melhor com os objetos sendo capaz de fazer sublimações, o que faz com que o eu se integre cada vez mais. A autora coloca que angústias arcaicas são vivenciadas nesse período, porém elas perdem força à medida que a posição depressiva é elaborada.

Ainda em “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” Melanie Klein, (1946) afirma que no caso de o eu não ser capaz de fazer frente à angústia vivenciada nesse período e elaborar a posição depressiva, acontecerá uma regressão do mesmo à posição esquizo-paranóide, o que serviria de base para o desencadeamento posterior da psicose ou o fortalecimento de traços depressivos devido à desintegração cada vez maior do eu.

Para Klein (1946), a angústia é derivada da pulsão de morte assumindo especificamente a forma da agressividade.

sábado, 6 de março de 2010

PERVERSÃO: uma perspectiva psicanalítica


No século XIX a medicina ao especificar o campo da perversão concedeu a esta um estatuto de “doença” conceituado-a como um desvio da função sexual em detrimento do comportamento considerado normal. É nesse cenário que a psicanálise traz para a cena um questionamento: o que é normal dentro do campo da sexualidade? Para se estabelecer o conceito do que é um desvio é preciso uma fundamentação a respeito da normalidade. É disso que se ocupa o campo médico: estabelecer critérios que diferenciem o normal do patológico. Para isso foram criados manuais tais como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e o Código Internacional de Doenças (CID) que de tempos em tempos passa por atualizações. Todo esse trabalho realizado pelo campo médico tem como objetivo tamponar o mal estar que impera na civilização. Tomando como ponto de partida essa especificidade Freud entra em cena questionando a medicina e ao mesmo tempo afirmando que a sexualidade humana é perversa no artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” publicado em 1905. A psicanálise traz um novo rumo para a compreensão da perversão ao defini-la como uma estrutura psíquica que está diretamente ligada ao complexo de Édipo.

Mais de cem anos se passaram e o século XXI chegou trazendo como marca a revolução tecnológica no campo das comunicações que nos colocam diariamente em contato com histórias de violência, abuso sexual de crianças e a existência de redes de pedofilia veiculadas na internet. Essas notícias nos causam indignação, perplexidade e deflagra o sentimento de desamparo trazendo à tona a insegurança que tem permeado nossa sociedade. O mal estar da sociedade é visível diante de tal realidade. O campo médico reage colocando à disposição da sociedade novos medicamentos, o governo acena com medidas punitivas mais severas, tais como a proposta de castrar quimicamente os sujeitos que cometem abuso sexual de crianças. A pedofilia é trazida para o palco das discussões e novamente o que prevalece é o discurso do campo médico que coloca à disposição da sociedade drogas que inibem o desejo sexual do sujeito.

Diante do discurso da medicina e dos governantes nos perguntamos: o que a psicanálise tem a dizer sobre essas questões?

A temática da perversão aparece na obra de Freud em 1905 no artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” quando este ao investigar a sexualidade infantil faz uma distinção entre as inversões e as perversões. Nesse momento de sua obra Freud (1905/2006a) coloca o processo sexual perverso no desenvolvimento normal da sexualidade ao afirmar que a sexualidade infantil é perversa polimorfa.
"É instrutivo que a criança, sob a influencia da sedução, possa tornar-se perversa polimorfa e ser induzida a todas as transgressões possíveis. Isso mostra que traz em sua disposição a aptidão para elas (....)". FREUD, 1905, p. 180.

A permanência na vida adulta dessas características perverso-polimorfas, encontradas na sexualidade pré-genital infantil em detrimento da sexualidade genital considerada normal constituiria segundo o autor uma perversão. O argumento que ele utiliza aqui é de que a neurose é o negativo da perversão diferenciando assim essas duas estruturas. (Freud, 1905/1996, p.157). O estudioso afirma que no desenvolvimento normal da sexualidade os neuróticos “recalcam” os impulsos sexuais perversos, enquanto que nos perversos essa sexualidade não sofre recalque nem sublimação tornando o sujeito fixado à pré-genitalidade.

O pensamento inicial de Freud sobre as perversões era de que fantasias recalcadas na neurose são vividas sem culpa e conscientemente na perversão. (Freud, 1909/2006b).

Em “Uma criança é espancada: Uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais” Freud, (1919/2006c, p.208) afirma que as fantasias de espancamento eram apenas resquícios do conflito edípico, ou seja, marcas formadas nesse processo.

O tema da sexualidade infantil retorna na obra freudiana quando é publicado o artigo “A Organização Genital Infantil” em que Freud (1923/2006e) avança em direção ao mecanismo metapsicológico da perversão atribuindo ao complexo de castração um estatuto orientador no desenvolvimento da sexualidade trazendo de volta a dialética edipiana em torno da questão enigmática da diferença dos sexos. Nesse texto Freud afirma que:

"No decorrer destas pesquisas a criança chega a descoberta de que o pênis não é uma possessão, comum a todas as criaturas que a ela se assemelham(...) Sabemos como as crianças reagem às suas primeiras impressões da ausência de um pênis. Rejeitam o fato e acreditam que elas realmente, ainda assim vêem um pênis (...) A falta de um pênis é vista como resultado da castração e, agora a criança se defronta com a tarefa de chegar a um acordo com a castração em relação a si própria". Freud 1923, p. 159.

Esse confronto com a castração é angustiante para a criança e é essa angústia de castração que faz emergir reações defensivas destinadas a neutralizá-las. Construções psíquicas defensivas anunciam a negação da criança em aceitar a diferença real dos sexos assim como passam a predeterminar e orientar o curso da economia psíquica segundo certas modalidades que atualmente designamos em termos de estruturas psíquicas. (DOR, J. 1993 p. 36)

Ainda no artigo “A Organização Genital Infantil” Freud, (1923/2006f) volta-se para o mecanismo metapsicológico da perversão elaborando a noção de denegação da realidade, ligando definitivamente o desenvolvimento das perversões ao Complexo de Édipo.

Em “Fetichismo” Freud (1927/2006g) coloca o fetiche como substituto para o pênis da mulher (mãe), sendo a recusa dessa percepção traumática o mecanismo psíquico utilizado na perversão. A denegação da percepção do falta de pênis na mulher pelo Ego é um mecanismo de defesa diante da angústia de castração que viabiliza a coexistência de duas formações psíquicas inconciliáveis entre si: a recusa e ao mesmo tempo o reconhecimento da ausência do pênis na mulher. O sujeito diante da realidade da castração da mulher se vê diante de seus temores de castração, o que para ele seria insuportável caso não recorresse à fantasia de onipotência (formação substitutiva da realidade).

A idéia de que a perversão seria a manifestação da sexualidade infantil não recalcada é abandonada, assim como a concepção desta a partir do desvio quanto a um objeto sexual. O posicionamento do sujeito perante o complexo de Édipo passa a ser o fator determinante no posicionamento psíquico do sujeito, que diante da castração prefere recusá-la, neutralizando assim a angústia de castração.

A partir da elaboração do fetichismo, Freud irá desenvolver a noção de clivagem do eu, ou seja, a concepção de que há uma clivagem intrapsíquica que permite a coexistência de duas realidades inconciliáveis que jamais se influenciam. (DOR, J. 1993 p.38). Enquanto uma considera a realidade a outra nega a realidade substituindo-a pelo seu próprio desejo. Assim, o perverso conseguiria viver uma vida aparentemente normal segundo os parâmetros da sociedade e ao mesmo tempo manter comportamentos considerados inaceitáveis segundo a norma social. Freud apresenta o fetichismo como sendo uma espécie de modelo geral por seus elementos invariantes, sustentando-se, portanto, como uma estrutura psíquica.

Resumindo, a estrutura psíquica perversa encontra sua origem na obra freudiana a partir de dois processos, a saber, na angústia de castração e na mobilização de mecanismos defensivos destinados a contorná-la. (DOR, J. 1993).