domingo, 20 de fevereiro de 2011

“O Eu é um outro” - considerações sobre a constituição do eu em Lacan

Vivemos um momento fértil no que se relaciona à produção científica voltada para análise do modo de vida contemporâneo, das relações e também das escolhas que o homem moderno tem feito. Sem dúvida estamos vivendo momentos de extrema insegurança e porque não dizer, inconstância nas relações. No entanto, entendemos que um estudo do modo de vida contemporâneo, deve sempre partir de uma maior compreensão a respeito do indivíduo, levando em conta aquilo que o determina.

Podemos afirmar que Jacques Lacan preocupava-se em elucidar duas questões específicas: a dimensão da determinação social sobre a experiência psíquica e as funções da imago na constituição do sujeito. Orientado por estas questões, Lacan concentrou-se em desvendar a teoria do narcisismo que fora desenvolvida por Freud, ampliando, desta forma, o conhecimento a respeito da constituição do eu. Lacan (1998) no artigo “O estádio do espelho como formador da função do eu” utiliza-se do estádio do espelho para nos explicar como a criança ao ver sua imagem no espelho reconhece-se como um outro imaginário passando a manter com essa imagem uma relação de identificação narcísica, também chamada de identificação inaugural. Essa primeira identificação deverá servir como modelo para outras identificações que o sujeito estabelecerá à medida que voltar sua libido para outros objetos. Esse é um importante momento, quando a criança deve se desprender dessa alienação narcísica.

Lacan ressalta a importância da fala fundadora que ao dizer: “tu és isto” introduz a criança no mundo simbólico, composto por significantes que tem por função imprimir no sujeito leis que o introduzirão no mundo da linguagem. O que Lacan nos ensina, é que somos determinados por coordenadas simbólicas que se expressam através da linguagem. No Seminário 3 – As psicoses, Lacan, (1985) nos fala a respeito da existência do significante - o Nome-do-Pai - como sendo o significante mestre que norteará toda a existência do sujeito. Adverte ainda que, é a ausência desse significante estrutural que constituirá o fenômeno psicótico, tal como indica:

“Na relação do sujeito com o símbolo (linguagem), há a possibilidade de uma Verwergung (rejeição) primitiva, ou seja, que alguma coisa não seja simbolizada que vai se manifestar no real.” (Lacan, 1985 p.100).

O eu constitui-se, portanto, através desses processos identificatórios e dos significantes que vem do outro, por isso Lacan afirma que o “o eu é um outro”, ou seja, o outro é a nossa medida. Lacan, (1985) apresenta no seminário 3 – As psicoses uma crítica a respeito do “discurso da liberdade, tão em voga na modernidade, ao afirmar que “vivemos numa sociedade em que a escravidão não é reconhecida”, uma sociedade que já percebeu a existência de uma discórdia entre o fato puro e simples da revolta e a eficácia transformadora da ação social. O discurso da liberdade, segundo Lacan, é não só ineficaz, mas também alienado em relação ao seu fim e ao seu objeto. Esse discurso articula-se no fundo com um certo direito do indivíduo à autonomia, estabelecendo sua independência não só em relação a todo senhor, mas também com todo deus.

Lacan considera que esse discurso assemelha-se ao discurso delirante do psicótico, que se recusa em reconhecer a existência de uma realidade que é exterior, em face das exigências que é preciso suportar da realidade. Afirma que, esse fato revela que “no estado atual das relações inter-humanas em nossa cultura ninguém está à vontade...”.

A psicanálise não coaduna com o discurso da liberdade. Antes se atém em um discurso diferente que se inscreve no próprio sofrimento do sujeito, visando o efeito do discurso no seu interior.

Concluímos, portanto que o discurso filosófico que defende uma existência autêntica, livre de todas as amarras que vem do mundo exterior, não é suficiente para que o eu seja capaz de sustentar um discurso que de alguma forma, não esteja marcado por suas identificações primitivas. O eu é um outro!



LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 3 – As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1985.

LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998.

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