domingo, 19 de setembro de 2010

APODERAMENTO E MUDANÇA SOCIAL: algumas considerações sobre a psicologia sócio-histórica


A inserção do psicólogo em novos espaços é uma demanda crescente no Brasil, principalmente no que diz respeito ao trabalho relacionado às problemáticas sociais onde o profissional se vê diante do cotidiano da população tendo como desafio orientar sua prática em torno das questões trazidas pelas pessoas da comunidade. (Freitas, 1998 p.2).

Precisamos salientar que a prática do psicólogo na comunidade muitas vezes está orientada pelos valores pessoais do profissional assim como de sua visão de homem e de mundo, levando-o a intervir de forma diretiva, alterando a realidade daquela população sem se permitir entrar em contato com a diferença do outro, que se apoderem com suas questões e seus desejos. O psicólogo inserido na comunidade deve ser orientado pelas necessidades e demandas levantadas pela população, concedendo a estas pessoas o direito de manifestar sua identidade.

A inserção do psicólogo na comunidade deve proporcionar que as pessoas que ali habitam se tornem participantes ativos e capazes de avaliar sua realidade e determinar quais as mudanças julgam como sendo necessárias naquele contexto. Toda proposta de intervenção em comunidades deve ser elaborada em conjunto com a população, levando-a a se posicionar diante de sua realidade. A tomada de posição a que nos referimos não é simplesmente a de tomar consciência dos problemas existentes na comunidade, mas acima de tudo deve haver um entendimento do papel a ser desempenhado por cada um dentro daquele contexto, de forma a produzir as transformações necessárias.

O objetivo da psicologia sócio-histórica é trabalhar a visão que a população da comunidade tem a respeito de si e do mundo que a cerca, colaborando com o desenvolvimento de uma consciência crítica ao mesmo tempo em que possibilita que essas pessoas se tornem potentes e capazes de lutar por seus direitos e de viabilizar as mudanças em seu contexto social. (Freitas, 1998 p.6).

A psicologia sócio-histórica é um poderoso instrumento na construção de comunidades mais conscientes, mais participativas e emancipadas do ponto de vista social. Sua pratica diferencia-se radicalmente de outras propostas assistencialistas, pois busca uma inserção na comunidade com o objetivo de produzir entre a população uma análise de suas necessidades que culmine no estabelecimento de alternativas de ação capazes de levar as pessoas a enfrentaram seus problemas cotidianos e de construírem uma identidade mais humana.

É extremamente importante a inserção de psicólogos sociais que desenvolvam projetos cujo objetivo seja o de contribuir para a produção de conhecimento conjunto entre os membros da comunidade, com o desenvolvimento de suas potencialidades, possibilitando que a população se apodere das suas questões sendo capazes de desenvolver ações capazes de produzir transformação em sua realidade social.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A ANGÚSTIA E A ESTRUTURAÇÃO DO EU EM MELANIE KLEIN

Melanie Klein (1882-1960) fundamentou sua teoria na observação do bebê em seu primeiro ano de vida, o que a resultou na identificação de situações de angústia profundas e poderosas nas fazes iniciais do desenvolvimento mental. Podemos afirmar que ela elegeu como tema central em sua obra a angústia e as defesas criadas pelo ego contra a mesma. Para a autora a angústia e sua resolução são pré-requisitos do desenvolvimento.

De modo contrário a Freud que privilegiou a libido, Melanie Klein tomou como foco a agressividade e sua influência no desenvolvimento psíquico do sujeito. Em seu artigo “A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” escrito em 1930, afirma que “O excesso de sadismo dá origem a angústia” (p.252), determinando assim, que a angústia tem sua origem no excesso de agressividade experimentado pelo bebê nos primeiros meses de vida. Neste mesmo artigo explica que o ego é obrigado a lidar com a angústia que advêm desse excesso pulsional, tendo que dominá-la e que para isso cria mecanismos defensivos. Nesse estágio, para se defender o ego expulsa de si a agressividade e dirige-a contra o objeto com a intenção de destruí-lo. No entanto nesse percurso a agressividade se torna a própria fonte de perigo, pois ao liberar a angústia, estabelece-se o medo da retaliação por parte do objeto atacado. A autora conclui que é essa angústia inicial que põe em movimento o mecanismo de identificação, impulsionando o bebê a avançar para outra posição em seu desenvolvimento mental. (Melanie Klein, 1930 p.252).

Melanie Klein (1930 p.253) acreditava que a capacidade do ego se relacionar com a realidade está intimamente ligada ao grau de tolerância deste ao lidar com a pressão causada pelas primeiras situações de angústia, sendo que “uma certa quantidade de angústia é a base necessária para que a formação de símbolos e a fantasia ocorram em abundância” . Percebemos como a autora coloca a angústia em uma posição central em relação ao desenvolvimento psíquico do sujeito. Neste contexto notamos uma similaridade entre o pensamento de Melanie Klein e Freud no que tange a importância do fator quantitativo de excitação que o eu é capaz de suportar e sua relação com o surgimento da angústia. É importante frisar também que a autora, assim como Freud, coloca a angústia como sendo promotora de mecanismos defensivos. Os mecanismos defensivos utilizados pela criança em seu estágio inicial de desenvolvimento são atualizados em sua vida adulta à medida que o sujeito vivencia situações geradoras de angústia. Essa idéia é desenvolvida em 1940 no artigo intitulado “O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos” onde Melanie Klein deixa claro que a forma como o bebê reage aos lutos, ou seja, às perdas é determinante em sua vida adulta.

Em seu artigo de 1946 “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” Melanie Klein traz um relato detalhado acerca do desenvolvimento psíquico do bebê em seus primeiros três meses de vida. Neste período a autora afirma que o bebê está na posição esquizo-paranóide, cuja principal característica é a cisão, tanto do eu quanto do objeto. A mãe é uma mãe excindida: a mãe boa é aquela que o satisfaz, sendo que a mãe má é aquela que lhe nega a satisfação. A cisão do objeto que deriva da agressividade que lhe é dirigida acarretará também a cisão do eu, e segundo a autora, este processo se repete nos casos de esquizofrenia. Portanto, a resolução da posição esquizo-paranóide dependerá da capacidade do eu em transformar o objeto cindido em um objeto total possível de ser internalizado pelo eu à medida que este se identifica com o objeto. Este processo é determinante na instauração da estrutura psíquica, pois uma fixação na posição esquizo-paranóide poderá desencadear a psicose em um momento posterior da vida do sujeito. Entre três e seis meses o bebê passará à posição depressiva onde estabelecerá uma relação com o objeto total sendo que o sentimento de culpa e de reparação se constituirá como marcas em seu desenvolvimento. Nessa fase ainda haverá alternâncias entre a posição esquizo-paranóide e a posição depressiva, porém uma maior integração do eu tornará possível uma maior compreensão da realidade psíquica e melhor percepção do mundo externo. A culpa e o medo vivenciados nessa fase são resultado da agressividade dirigida contra o objeto amado e o impulso em reparar e proteger o objeto é que capacitará o eu para se relacionar melhor com os objetos sendo capaz de fazer sublimações, o que faz com que o eu se integre cada vez mais. A autora coloca que angústias arcaicas são vivenciadas nesse período, porém elas perdem força à medida que a posição depressiva é elaborada.

Ainda em “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” Melanie Klein, (1946) afirma que no caso de o eu não ser capaz de fazer frente à angústia vivenciada nesse período e elaborar a posição depressiva, acontecerá uma regressão do mesmo à posição esquizo-paranóide, o que serviria de base para o desencadeamento posterior da psicose ou o fortalecimento de traços depressivos devido à desintegração cada vez maior do eu.

Para Klein (1946), a angústia é derivada da pulsão de morte assumindo especificamente a forma da agressividade.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE

1 - O INCONSCIENTE

Freud, (1924 [1923]) coloca que a psicanálise cresceu em meio ao interesse em se saber mais sobre as doenças nervosas, colocando fim a impotência dos médicos no tratamento destas enfermidades. Inicialmente a investigação se concentrava no fisiológico, onde o esforço era para localizar nas regiões do cérebro a causa dessas doenças, não havendo nenhuma compreensão do fator psíquico. Reconhecia-se a existência do sofrimento que era de uma outra ordem ainda desconhecida, porém procurava-se a solução para esse sofrimento no corpo, no anatômico.

É nesse cenário constituído de certa curiosidade, que em 1880 começa-se a praticar a hipnose, sendo reconhecido que mudanças somáticas aconteciam como conseqüência de influencias mentais, podendo-se então notar a existência de processos mentais inconscientes.

Através da fala do paciente o médico tinha acesso a esses processos mentais, o que possibilitou a descoberta de que eventos passados tinham poder de sobredeterminaçao sobre a vida desses pacientes. O inconsciente propriamente dito consiste de processos reprimidos, que exercem pressão no consciente da mente do sujeito modelando a sua vida cotidiana.

Em sua primeira tópica sobre o aparelho psíquico Freud (1900) o divide em Consciente, Pré-consciente e Inconsciente. A consciência, segundo ele, é breve e passageira e se destina a recepcionar as percepções que são de antemão conscientes. Tanto as que provêm de fora (percepções sensoriais), como as que provêm de dentro e que chamamos de sensações e sentimentos. No Pré-consciente estão as memórias que se encontra em estado latente, ou seja, podem se tornar conscientes. O Recalque é o estado em que as idéias estão antes de se tornarem conscientes e é ele que nos fornece o modelo para a compreensão do inconsciente. A censura nesse caso é uma barreira criada pelo Eu para impedir que aquilo que foi recalcado se torne consciente.

Na segunda tópica do aparelho psíquico Freud (1923) o divide em Id, Ego, e Superego, introduzindo uma mudança no sentido de pensar o aspecto tópico (lugares psíquicos) da psicanálise. Ele traz essa nova tópica simultaneamente a uma nova teoria pulsional (pulsão de vida x pulsão de morte), isto porque a idéia de inconsciente está se ampliando. A noção de que havia um lugar para o inconsciente é substituído pelo entendimento de que os processos inconscientes atravessam o Id, o Ego e o Superego. Um exemplo disso é a culpa inconsciente presente no Superego. A noção de inconsciente, então, passa a ser onipresente. Freud (1923) assinala que o inconsciente não se confunde com o recalcado. O inconsciente está, além disso, sendo o recalcado um exemplo de material inconsciente, ou de processo psíquico inconsciente.

Em seu artigo O Eu e o Id, Freud (1923) coloca que “ocorre que através da técnica psicanalítica, é possível sim, suspender a ação das forças opositoras e trazer a tona essas idéias, torná-las conscientes”. Afirma assim que existem formas de trazer à tona os conteúdos inconscientes.

O Inconsciente, segundo os escritos freudianos se expressa por meio das seguintes formas:

 Chistes - jogos de palavras aparentemente sem sentido, mas que ultrapassa o seu próprio conteúdo ao utilizar-se do cômico.

 Através dos atos falhos que são manifestações de desejos inconscientes por meio de lapsos durante a fala onde palavras são substituídas por outras que aparentemente não faz sentido, mas na realidade expressam o que está reprimido.

 Sonhos – forma disfarçada de realização de desejos. Sobre ele incide uma censura cujo efeito e a deformação onírica, cujo objetivo é proteger o sujeito do caráter ameaçador dos seus desejos.

 Associação livre – livre associação de palavras, sem pressionar a busca por uma lembrança específica. É o método terapêutico por excelência da psicanálise.


2-PULSÃO (TRIEB)

A idéia de pulsão é apresentada por Freud (1915) como um “conceito de fronteira”, algo que está no limite entre o somático e o orgânico, sendo equiparada a uma tensão que tem como alvo a descarga.

...um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em conseqüência de sua relação com o corpo. (Freud, 1915 p.148).

Essa referência exige que esclareçamos que não se trata somente de algo orgânico ou somente psíquico, mas de uma interligação da psique ao corpo que leva a um trabalho de busca de objetos. Essa energia que manifesta no âmbito psíquico é marcada por afetos, imagens e, sobretudo pela linguagem.

A pulsão segundo Freud (1915), é composta pelos seguintes elementos:

• Pressão – um impulso em direção ao alvo (objeto).

• Meta – é sempre a busca por satisfação.

• Objeto – elemento variável e incontingente, por meio de que a pulsão pode alcançar sua meta.

• Fonte – é orgânica, isto é, provêm sempre do corpo.

Há o pressuposto de que existe uma pressão constante que leva o organismo vivo a buscar o prazer e repelir o desprazer, sendo este o princípio que rege a definição de Pulsão Sexual, ou seja, o Princípio do Prazer. A pulsão busca o prazer e quem oferece essa possibilidade de satisfação é o outro enquanto objeto e esse outro é limitado, nunca vai dar conta de proporcionar uma satisfação total. Podemos então afirmar que a satisfação é sempre parcial, que ela perdura por um tempo e depois há um retorno da pressão.

Vamos encontrar na obra freudiana duas teorias sobre as pulsões, sendo que cada uma dessas teorias utiliza um conceito de pulsão. É preciso salientar que a segunda teoria não substitui a primeira, mas a engloba, com algumas alterações.



A primeira teoria pulsional: Pulsão Sexual x Pulsão de autoconservação

Freud (1920) afirma que os processos psíquicos são regulados de forma automática pelo princípio do prazer, sendo que a noção de prazer e desprazer é relacionada com a quantidade de excitação presente na vida psíquica, de forma que o desprazer está relacionado ao aumento e prazer a diminuição dessa quantidade. Retoma-se a suposição de que o aparelho psíquico trabalhe para manter esse nível de excitação em quantidade baixa, ou pelo menos constante, existindo outras forças que se opõem a essa tendência ao prazer.

Ao princípio do prazer está relacionado modo primário de funcionamento psíquico, sendo que na medida em que ocorre o desenvolvimento as pulsões de autoconservação do Eu acabam por conseguir que o principio do prazer seja substituído pelo princípio da realidade (pulsão de autoconservação).

A primeira teoria pulsional compreende então uma pulsão sexual e outra que Freud considera dessexualizada, que é a pulsão de autoconservação, uma tendência do sujeito em tentar sobreviver ligado ao Princípio da Realidade, que entra em choque com a busca do prazer. A pulsão sexual nos remete a possibilidade de representação que o sujeito faz da realidade.



A Segunda Teoria Pulsional: Pulsão de Vida x Pulsão de Morte

Para Freud (1920) a pulsão sexual passa a ter a conotação de Pulsão de Vida a partir da concepção de que esta é tudo que unifica que possibilita prazer, é todo movimento que o sujeito faz na direção da obtenção de um prazer, mesmo parcial. Aquilo que sofre recalque, que está ligado à pulsão de vida, retorna de uma forma repetitiva. A repetição nos diz que aquilo que foi recalcado insiste em voltar à consciência e isso é o sintoma, desejo inconsciente insiste na busca de satisfação. Essa tendência Freud vai chamar de Compulsão á Repetição. O sintoma tem essa característica de uma repetição, de uma compulsão á repetição.

O que de fato nos surpreende são os casos em que a pessoa parece vivenciar passivamente uma experiência sobre a qual não tem nenhuma influencia, só lhe restando experimentar a repetição da fatalidade. (Freud, 1920, p.147).

A compulsão à repetição é inscrita pela falta de sentido, ou seja, pelo traumático. Isso nos remete á concepção de trauma como aquilo que foi vivido e que não tem sentido, não foi possível significar. Esse traumático está inscrito no início da vida, pois nesse início a criança não tem acesso á linguagem, sendo assim, não é ela quem dá sentido ás coisas. A Pulsão de Morte é introduzida nesse momento com a idéia de que existe algo na vida humana que é sem sentido, que não é explicável, é enigmático, não representável e que isso faz parte da existência humana. O não representável não se pode recalcar, pois não tem uma idéia que o represente, logo o que é da ordem do recalque é a pulsão de vida. O que impulsiona a existência humana é a pulsão de morte, pois ela é primária, está inscrita no início da vida humana e Freud (1920) vai se utilizar do mito biológico de que o fim da vida é a morte afirmando que desde que o sujeito nasce ele está caminhando para esse não sentido, para o não representável. Ele afirma que essa é a força mais poderosa. Por outro lado ele afirma que a Pulsão de Vida que é sexual, barra a Pulsão de Morte, ao dar sentido ás coisas.

Ao analisar os sonhos dos neuróticos de guerra Freud (1920) percebe que eles apontam para uma compulsão à repetição numa tentativa de estabelecer um limite, um controle, para aquilo que não teve sentido, para aquilo que fugiu do controle do sujeito. As situações traumáticas estão acima do psiquismo do sujeito, onde a morte está presente o tempo todo muito próximo do sujeito. Ele percebe então, que esses sonhos eram o retorno do não sentido e que os sonhos eram uma tentativa do sujeito dar conta dessa intensidade pulsional vivida que não foi possível simbolizar. Se o sujeito não consegue dar sentido, não tem como esquecer. Do ponto de vista da existência humana a falta de sentido é a morte.

Concluindo, Freud nos leva à compreensão de que o principio do prazer é quem rege a Pulsão de Vida. O sonho seria uma realização do desejo, daquilo que sofreu recalque que tem um caráter sexual, porém ao analisar os sonhos dos neuróticos de guerra conclui que existe algo que está além do princípio do prazer, que está a serviço da morte, uma Pulsão de Morte.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Comunidade, Sociedade e Metrópole: novos paradigmas

Nas últimas semanas diversas famílias foram vitimadas por enchentes e deslizamentos de encostas no Estado do Rio de Janeiro, que infelizmente tirou a vida de muitas pessoas. A tragédia suscitou questões, tais como, a necessidade de planejamento e de ações de prevenção em áreas de risco. Esse cenário desvela as mudanças de cunho social que vem acontecendo nas últimas décadas motivadas pela atração que os indivíduos sentem pela vida na metrópole e seu apelo capitalista.

Acreditamos que a ascensão do capitalismo trouxe profundas mudanças para a subjetividade, pois esse sistema econômico tem a força de produzir novas “necessidades” para os indivíduos, transformando-os em consumidores vorazes de novas tecnologias, de marcas e de um novo estilo de vida. As metrópoles surgem ao redor das grandes indústrias, produzindo um modo vida marcado pela velocidade, pelo individualismo e insegurança. Hipnotizados pelo apelo consumista das vitrines de grandes lojas e shoppings, os moradores da metrópole se satisfazem com inovações tecnológicas (mp3, celular, TV de plasma, etc.) e se esquecem da precariedade em que vivem da falta de infra estrutura básica dos lugares onde residem, dos problemas de saúde, saneamento básico, etc.

Por outro lado percebe-se que os grandes centros urbanos produzem cada vez mais “passageiros cadavéricos”, que marcados pela velocidade, buscam saciar sua fome voraz por ter “coisas”. A falta, o vazio e o mal estar são visíveis e nessa imensa roda que gira sem parar não há lugar para a subjetividade. Num mundo onde tudo circula velozmente, a subjetividade se cristalizou. Não há mais sentimento de pertencimento, de territorialidade, pois tudo é muito rápido, passageiro e descartável.

Como conseqüência desse modo de existir instala-se a incerteza, a falta de segurança e a solidão. As famílias não se reúnem mais para o almoço de domingo e as comemorações, pois a velocidade do mundo capitalista traz a ilusão de que um computador com acesso a internet pode nos ligar aos entes que se encontram distantes. Na metrópole não há lugar, ou espaço, para o passageiro caminhante, pois passageiros cadavéricos tem pressa, pressa para chegar a lugar nenhum. A subjetividade nas metrópoles, se é que ela existe, é caracterizada pela indiferença urbana que não enxerga os velhos, os favelados, sem-teto, mendigos, trabalhadores e desempregados. Apesar da velocidade, essas pessoas não conseguem sair do lugar.

Um dos fatores que marca a vida na metrópole é o desaparecimento da comunidade. Zigmund Bauman retrata a vida na comunidade diferenciando-a totalmente da sociedade. Ele afirma que a comunidade se caracteriza por ser um lugar cálido, confortável e aconchegante, além de ser um lugar seguro. Numa comunidade todos se entendem bem, há confiança mútua e se pode contar com a boa vontade dos outros. A comunidade possui como elementos constitutivos as relações de sangue, lugar, parentesco e vizinhança, sendo que todos compartilham o que possuem, e o entendimento surge naturalmente de forma recíproca e vinculante, ao mesmo tempo em que expressa a vontade de todos que se unem. O entendimento não precisa ser procurado, e muito menos construído, pois já está lá, completo e pronto para ser usado – sem palavras. Ele precede todos os acordos e desacordos (não é pensado, articulado artificialmente), sendo este o ponto de partida de toda união.

Na comunidade há distinção, ou seja, uma divisão clara entre esta e os demais grupos. A comunidade é pequena, todos conseguem vela e a comunicação é densa e fluída, e é também auto-suficiente, pois todas as atividades atendem a necessidade das pessoas que fazem parte dela e o isolamento é praticamente inexistente. A mesmidade é compartilhamento de vantagens entre os membros, independente do talento e importância deles.

A sociedade por sua vez se caracteriza pela falta de vínculos entre os homens. As atividades são puramente aquisitivas (consumo) tendo como base o mercado a troca e o dinheiro. Na sociedade valoriza-se o modernismo, as inovações tecnológicas, e a impessoalidade das relações. O entendimento precisa ser construído através de acordos que precisam ser monitorados sendo que são baseados em consensos temporários. A sociedade é frágil, e sempre necessita de vigilância, reforço e defesa.

sábado, 6 de março de 2010

PERVERSÃO: uma perspectiva psicanalítica


No século XIX a medicina ao especificar o campo da perversão concedeu a esta um estatuto de “doença” conceituado-a como um desvio da função sexual em detrimento do comportamento considerado normal. É nesse cenário que a psicanálise traz para a cena um questionamento: o que é normal dentro do campo da sexualidade? Para se estabelecer o conceito do que é um desvio é preciso uma fundamentação a respeito da normalidade. É disso que se ocupa o campo médico: estabelecer critérios que diferenciem o normal do patológico. Para isso foram criados manuais tais como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e o Código Internacional de Doenças (CID) que de tempos em tempos passa por atualizações. Todo esse trabalho realizado pelo campo médico tem como objetivo tamponar o mal estar que impera na civilização. Tomando como ponto de partida essa especificidade Freud entra em cena questionando a medicina e ao mesmo tempo afirmando que a sexualidade humana é perversa no artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” publicado em 1905. A psicanálise traz um novo rumo para a compreensão da perversão ao defini-la como uma estrutura psíquica que está diretamente ligada ao complexo de Édipo.

Mais de cem anos se passaram e o século XXI chegou trazendo como marca a revolução tecnológica no campo das comunicações que nos colocam diariamente em contato com histórias de violência, abuso sexual de crianças e a existência de redes de pedofilia veiculadas na internet. Essas notícias nos causam indignação, perplexidade e deflagra o sentimento de desamparo trazendo à tona a insegurança que tem permeado nossa sociedade. O mal estar da sociedade é visível diante de tal realidade. O campo médico reage colocando à disposição da sociedade novos medicamentos, o governo acena com medidas punitivas mais severas, tais como a proposta de castrar quimicamente os sujeitos que cometem abuso sexual de crianças. A pedofilia é trazida para o palco das discussões e novamente o que prevalece é o discurso do campo médico que coloca à disposição da sociedade drogas que inibem o desejo sexual do sujeito.

Diante do discurso da medicina e dos governantes nos perguntamos: o que a psicanálise tem a dizer sobre essas questões?

A temática da perversão aparece na obra de Freud em 1905 no artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” quando este ao investigar a sexualidade infantil faz uma distinção entre as inversões e as perversões. Nesse momento de sua obra Freud (1905/2006a) coloca o processo sexual perverso no desenvolvimento normal da sexualidade ao afirmar que a sexualidade infantil é perversa polimorfa.
"É instrutivo que a criança, sob a influencia da sedução, possa tornar-se perversa polimorfa e ser induzida a todas as transgressões possíveis. Isso mostra que traz em sua disposição a aptidão para elas (....)". FREUD, 1905, p. 180.

A permanência na vida adulta dessas características perverso-polimorfas, encontradas na sexualidade pré-genital infantil em detrimento da sexualidade genital considerada normal constituiria segundo o autor uma perversão. O argumento que ele utiliza aqui é de que a neurose é o negativo da perversão diferenciando assim essas duas estruturas. (Freud, 1905/1996, p.157). O estudioso afirma que no desenvolvimento normal da sexualidade os neuróticos “recalcam” os impulsos sexuais perversos, enquanto que nos perversos essa sexualidade não sofre recalque nem sublimação tornando o sujeito fixado à pré-genitalidade.

O pensamento inicial de Freud sobre as perversões era de que fantasias recalcadas na neurose são vividas sem culpa e conscientemente na perversão. (Freud, 1909/2006b).

Em “Uma criança é espancada: Uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais” Freud, (1919/2006c, p.208) afirma que as fantasias de espancamento eram apenas resquícios do conflito edípico, ou seja, marcas formadas nesse processo.

O tema da sexualidade infantil retorna na obra freudiana quando é publicado o artigo “A Organização Genital Infantil” em que Freud (1923/2006e) avança em direção ao mecanismo metapsicológico da perversão atribuindo ao complexo de castração um estatuto orientador no desenvolvimento da sexualidade trazendo de volta a dialética edipiana em torno da questão enigmática da diferença dos sexos. Nesse texto Freud afirma que:

"No decorrer destas pesquisas a criança chega a descoberta de que o pênis não é uma possessão, comum a todas as criaturas que a ela se assemelham(...) Sabemos como as crianças reagem às suas primeiras impressões da ausência de um pênis. Rejeitam o fato e acreditam que elas realmente, ainda assim vêem um pênis (...) A falta de um pênis é vista como resultado da castração e, agora a criança se defronta com a tarefa de chegar a um acordo com a castração em relação a si própria". Freud 1923, p. 159.

Esse confronto com a castração é angustiante para a criança e é essa angústia de castração que faz emergir reações defensivas destinadas a neutralizá-las. Construções psíquicas defensivas anunciam a negação da criança em aceitar a diferença real dos sexos assim como passam a predeterminar e orientar o curso da economia psíquica segundo certas modalidades que atualmente designamos em termos de estruturas psíquicas. (DOR, J. 1993 p. 36)

Ainda no artigo “A Organização Genital Infantil” Freud, (1923/2006f) volta-se para o mecanismo metapsicológico da perversão elaborando a noção de denegação da realidade, ligando definitivamente o desenvolvimento das perversões ao Complexo de Édipo.

Em “Fetichismo” Freud (1927/2006g) coloca o fetiche como substituto para o pênis da mulher (mãe), sendo a recusa dessa percepção traumática o mecanismo psíquico utilizado na perversão. A denegação da percepção do falta de pênis na mulher pelo Ego é um mecanismo de defesa diante da angústia de castração que viabiliza a coexistência de duas formações psíquicas inconciliáveis entre si: a recusa e ao mesmo tempo o reconhecimento da ausência do pênis na mulher. O sujeito diante da realidade da castração da mulher se vê diante de seus temores de castração, o que para ele seria insuportável caso não recorresse à fantasia de onipotência (formação substitutiva da realidade).

A idéia de que a perversão seria a manifestação da sexualidade infantil não recalcada é abandonada, assim como a concepção desta a partir do desvio quanto a um objeto sexual. O posicionamento do sujeito perante o complexo de Édipo passa a ser o fator determinante no posicionamento psíquico do sujeito, que diante da castração prefere recusá-la, neutralizando assim a angústia de castração.

A partir da elaboração do fetichismo, Freud irá desenvolver a noção de clivagem do eu, ou seja, a concepção de que há uma clivagem intrapsíquica que permite a coexistência de duas realidades inconciliáveis que jamais se influenciam. (DOR, J. 1993 p.38). Enquanto uma considera a realidade a outra nega a realidade substituindo-a pelo seu próprio desejo. Assim, o perverso conseguiria viver uma vida aparentemente normal segundo os parâmetros da sociedade e ao mesmo tempo manter comportamentos considerados inaceitáveis segundo a norma social. Freud apresenta o fetichismo como sendo uma espécie de modelo geral por seus elementos invariantes, sustentando-se, portanto, como uma estrutura psíquica.

Resumindo, a estrutura psíquica perversa encontra sua origem na obra freudiana a partir de dois processos, a saber, na angústia de castração e na mobilização de mecanismos defensivos destinados a contorná-la. (DOR, J. 1993).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Técnica Psicanalítica - Algumas Considerações



Segundo Freud, (1924 [1923]) em seu artigo “Uma Breve Descrição da Psicanálise” a psicanálise serve “... para revelar aquilo que por acordo universal fora reprimido para o inconsciente...”.

Logo podemos afirmar que a psicanálise é uma teoria que postula a existência de processos mentais inconscientes compostos de idéias (desejos sexuais) que não puderam ser satisfeitos na infância. Porém esses conteúdos recalcados insistem em retornar através dos sintomas, atos falhos, chistes e sonhos. O Sintoma é o retorno do recalcado e o que retorna é sempre um desejo. É uma representação substitutiva da idéia recalcada.

A psicanálise não tem como finalidade o desaparecimento do sintoma, mas a manutenção deste como via de acesso ao inconsciente. A suspensão do recalque e a emergência de um ser desejante capaz de reconhecer a castração e de suportar a falta.

Freud no artigo “Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise” afirma que o método psicanalítico é simples consistindo em não dirigir a atenção para algo específico e em manter a mesma “atenção uniformemente suspensa” (atenção flutuante) em face de tudo o que se escuta.

A atenção flutuante é a contrapartida da associação livre que é a regra fundamental da psicanálise. O paciente deve falar tudo o que lhe vem à mente e o analista deve escutá-lo sem se preocupar em reter a fala do paciente, buscando no aposteriori da sessão o significado daquilo que escuta. As intervenções são dirigidas de forma a revelar o sentido inconsciente da fala do paciente.

Ressaltamos também que a condição necessária para que um tratamento psicanalítico vá a termo é a transferência. A transferência é o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam no quadro da relação analítica.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As Faces da Angústia na Teoria Psicanalítica



A primeira teoria freudiana da angústia se constitui a partir dos estudos sobre as neuroses de angústia (1895[1894]). A perspectiva é de uma “má utilização da energia da libido”, ou seja, libido(energia sexual) não descarregada que se transformaria em angústia.

Freud (1926[1925])) em seu artigo Inibição, Sintoma e Angústia, introduz a segunda teoria da angústia, definindo-a como um afeto cujo caráter acentuado seria o desprazer, com a emergência de sintomas físicos ligados diretamente a alguns órgãos do corpo — algo que se sente — e que seria a causa do mecanismo defensivo nomeado de recalque, produtor dos sintomas neuróticos.

Freud (1926{1925]) , nesse mesmo artigo, vai considerar o desamparo biológico vivido pelo bebê, no momento do nascimento, como o protótipo da experiência da angústia. É a separação do bebê do corpo da mãe, o excesso de excitações advindas do mundo exterior e a incapacidade de simbolização desta experiência que levaria a um estado de desamparo, e que segundo Freud indicaria a primeira experiência de angústia vivida pelo ser humano.

Posteriormente, as experiências de angústia, funcionariam como uma sinalização da possibilidade de retorno da experiência de desamparo do sujeito, um sinal de perigo. Freud assinala aí uma importante passagem da angústia automática para a angústia sinal que permitiria ao sujeito um preparo diante do que poderia ser traumático.
Para Freud, então, o perigo é a ausência do Outro primário que no início da vida é aquele que atende as necessidades da criança impedindo a repetição da situação de desamparo originário.

A partir destas constatações é que Freud vai postular a angústia como causa e não conseqüência do recalque, entendendo-a como sinal de um perigo de ordem pulsional. A angústia é um sinal do eu diante de um perigo pulsional, ou seja, o retorno do recalcado. O recalcado é sempre um desejo que insiste em retornar, muitas vezes pela via do sintoma. O sujeito frente à eminência do surgimento de um desejo recalcado reproduz uma angústia já vivida, o que coloca em ação os mecanismos de defesa.

Lacan em seu retorno a Freud vai propor que a angústia é o único “afeto que não engana” e que surge sinalizando algo para o sujeito. Ele afirma que o trauma do nascimento não é a separação da mãe, mas o fato de que a criança ao nascer tem que aprender a respirar. Afirma, que este é o verdadeiro trauma original – uma invasão que o bebê sofre tendo que aspirar um ambiente totalmente Outro. Lacan vai colocar a angústia na sua condição de afeto central, em torno do qual tudo se ordena. Para ele afeto é algo da ordem da sensação e não um sentimento.

Lacan vai relacionar a angústia ao encontro com o desejo do Outro. É na confrontação do sujeito com o desejo do Outro que a angústia pode surgir. A questão que emerge é O que sou para o Outro? O que o Outro quer de mim? Essa questão que é sempre um enigma é geradora de angústia. Não é portanto, a ausência do outro que desperta a angústia, mas sim o enigma do desejo do Outro. Ser colocado na posição de objeto do desejo é o que faz emergir o desamparo e, conseqüentemente a angústia. (Uma impossibilidade de suportar a falta no Outro). O desejo do Outro é para Lacan o único lugar do qual o sujeito pode se apreender como desejante, sendo que na angústia o sujeito está em estado de total desconhecimento acerca desse desejo que lhe perpassa.

O que está em jogo na angústia é o momento em que o sujeito torna-se nada, objeto, quando falta o desejo, ou seja, quando falta a falta. A partir do momento em que o sujeito se vê diante do enigma do desejo do Outro, constituindo-se o objeto que virá preencher a falta desse Outro, vê-se diante de sua própria castração. Ao mesmo tempo em que o Outro não é capaz de satisfazê-lo plenamente, o sujeito compreende que também não é capaz de proporcionar tal satisfação. Para Lacan, a saída da angústia é o desejo, por isso afirma que o remédio para a angústia é o desejo.